14 de Agosto de 2005
Lixo do mundo pára
na Ilha do Mel, no Paraná
Uma garrafa fechada
com uma rolha é lançada ao mar. Dentro, um bilhete escrito
à mão, para um destinatário anônimo, cujo
conteúdo quase sempre remete a uma declaração
de amor ou a um pedido de socorro. A cena imortalizada no cinema como
um gesto romântico e solitário, na vida real ilustra
uma das mais graves agressões ao meio ambiente: o lixo jogado
nos oceanos e que vem parar nas praias trazido pela maré.
Uma pesquisa inédita, feita pela bióloga Andressa Rutz
Debiazio, revela que o litoral do Paraná não está
a salvo das garrafas, latas e embalagens que são arremessadas
pelo homem em alto-mar e nas regiões costeiras. O estudo, que
embasou monografia de conclusão do curso na Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC), foi feito na
Estação Ecológica Ilha do Mel, que compreende
95% da área total da ilha, no litoral do estado.
O resultado foi
surpreendente: a bióloga encontrou 148 embalagens de 42 países
diferentes. Material descartável, mas perfeitamente reciclável
como metal, vidro e, na maioria, plástico (61%). Lixo que demora
de seis meses a 500 anos para se decompor na natureza. Cerca de 76%
das embalagens são de produtos alimentícios (sólidos
e líquidos), com destaque para as garrafas de água (42%).
Os produtos foram identificados pelo idioma nos rótulos e,
sobretudo, pelo código de barras, que segue uma tabela universal.
Foram ao todo dez coletas realizadas entre outubro de 2004 e maio
deste ano ao longo dos 22 quilômetros de costa da reserva ambiental
(a ilha toda tem 35 quilômetros). Uma pequena amostra dos quilos
e mais quilos de lixo estrangeiro que chegam às praias de todo
o estado diariamente.
A explicação
para tamanha sujeira pode estar no vaivém de navios nos portos
de Paranaguá e Antonina. Ao longo da pesquisa, Andressa trabalhou
com quatro hipóteses para justificar a presença dos
resíduos na Ilha do Mel (veja quadro). Dentre elas, a mais
razoável é o arremesso desses objetos próximo
à costa paranaense em função do estado de conservação
das embalagens.
Diante dessa evidência, para ela ficou claro que os navios de
todo o mundo que cruzam o Canal da Galheta em direção
à Baía de Paranaguá têm culpa no cartório.
“Não temos provas, mas é difícil acreditar
que não sejam os navios que estejam jogando esses resíduos
na água”, explica.
Por ano, os portos paranaenses recebem em média 2,5 mil embarcações
de todo o mundo. De janeiro a junho deste ano, foram exatos 1.099
navios de 30 nacionalidades diferentes. A maioria dos objetos encontrados
pela bióloga foi fabricada na China e na Itália, mas
isso não quer dizer que os navios com essas bandeiras sejam
os campeões da sujeira. “Não posso afirmar que
determinado lixo é do país tal. Um navio chinês
pode ter atracado, por exemplo, no Chipre antes de vir ao Brasil e
trazido mercadorias fabricadas lá e não na China”,
esclarece.
A questão principal, segundo ela, é o desrespeito à
legislação internacional que rege o tratamento do lixo
em navios. “Existe um certificado de origem que trata da questão
do lixo. Cada vez que uma embarcação pára num
porto precisa apresentar esse documento e aí recebe outro para
apresentar no próximo porto. Até onde sei, o Brasil
não solicita a apresentação desse certificado”.
(Sérgio Luis de Deus / Gazeta do Povo)
Fonte:
Portal Ambiente Brasil
Gazeta do Povo 14/08/2005