15 de Maio de 2005
REPORTAGEM
ESPECIAL
Quando a inteligência e o lucro trabalham a favor
do meio ambiente
A
inteligência humana foi capaz de produzir a bomba atômica
e de alavancar um progresso industrial que, quase sempre, contribui
paralelamente para a destruição dos recursos naturais.
Mas a inventiva e o bom senso fazem vicejar empresas que se dedicam
ao desenvolvimento de tecnologias a caminhar na direção
contrária: são benéficas ao meio ambiente e,
o que é melhor, vêm ascendendo de forma contínua
no mercado.
O plástico que não polui
Dificilmente
alguém deixa de conviver com sacolas plásticas, sobretudo
porque elas são, na grande maioria dos supermercados, o instrumento
usado para embalar as compras. As vantagens do plástico comum
- durabilidade, resistência à umidade e aos produtos
químicos – são as mesmas que lhe conferem um aspecto
negativo grave: impedem sua decomposição. Sendo um material
que existe há apenas um século, a Ciência ainda
não determinou precisamente quanto tempo demora esse processo,
mas sabe-se que é superior a 100 anos. É enorme o potencial
de danos ao meio ambiente exercido, portanto, pelas pessoas que jogam
plásticos nas praias, matas, rios e mares.
No contraponto dessa poluição inconseqüente, apenas
no ano passado, cerca de 1.200 toneladas de embalagens plásticas
com conceito de rápida degradação foram produzidas
no Brasil, a partir de materiais e tecnologias desenvolvidos por uma
empresa paulistana. Ela fornece aditivos às indústrias
de plásticos que, integrados ao processo de fabricação,
tornam o produto final naturalmente degradável. Esse benefício
agrega-se a todos os outros do plástico tradicional, inclusive
a possibilidade de reutilização e reciclagem.
Os plásticos comuns dividem-se basicamente em dois grupos:
os de polietileno, usados nas sacolas de supermercado, e os de polipropileno,
mais duros - das capas de CDs, por exemplo. Em ambos os casos, eles
são compostos de carbono e hidrogênio. “As cadeias
são longas, complexas e de difícil rompimento”,
explica Eduardo Van Roost, diretor superintendente da empresa. O aditivo
que ela representa leva às ligações entre os
átomos a informação de que elas devem se oxidar.
Com isso, as cadeias começam a se quebrar, processo que é
acelerado pela luz, pelo calor e pela manipulação dos
produtos. “No final, teremos tamanhos de cadeias suficientemente
pequenas para serem digeríveis pelos microorganismos presentes
no meio ambiente”, explica Van Roost. Do plástico oxi-biodegradável,
como foi chamado, sobra apenas água, biomassa e pequena quantidade
de dióxido de carbono – a substância produzida
na respiração celular de animais e de plantas.
Os fabricantes deste material ambientalmente correto já têm
em seu portfólio mais de 150 clientes no Brasil. São
supermercados, lojas, confecções, redes de farmácias
e shopping centers, além de condomínios residenciais
e comerciais, restaurantes, hotéis e indústrias que
utilizam sacos plásticos para lixo com o conceito biodegradável.
“Também têm aumentado de forma constante a procura
e o uso, por parte de cidadãos, dos produtos com estas características”,
atesta Eduardo Van Roost.
Se
o Brasil começa a se conscientizar dessa possibilidade –
e a maior demanda será fundamental para reduzir o custo final
do produto -, o plástico biodegradável desperta interesse
de países por todo o globo. Em abril passado, a Interpack,
feira especializada em embalagens realizada na Alemanha, dedicou um
estande de 500 metros quadrados exclusivamente aos produtos que atendiam
a esse requisito. Foi a primeira vez que os biodegradáveis
mereceram tal status.
Segundo Van Roost, a previsão de crescimento mundial para embalagens
plásticas biodegradáveis é de 100 vezes nos próximos
cinco anos. Aliada à qualificação da consciência
ambiental do cidadão comum, em todos os continentes, alguns
governos têm feito o dever de casa quando se trata também
de legislar sobre o setor. “Em sete ou oito países, a
fabricação de sacolas para supermercados em plástico
não biodegradável é proibida”, informa
ele, sem esperanças, porém, de que medida semelhante
funcione no Brasil. “Aqui estamos cheios de leis e nem todas
são cumpridas”.
Como
sugestão, Van Roost levanta a proposta de se criar uma lei
nos moldes da Rouanet, de incentivo à cultura. Só que
essa possibilitaria a redução de impostos às
empresas que utilizassem, em sua rotina, o plástico biodegradável.
A
roupa feita de garrafas PET
Se
a sacola plástica demora até cem anos para se decompor,
as garrafas do tipo PET podem chegar a quatro séculos contaminando
a natureza. Assim, merece aplausos toda iniciativa que se destine
a estimular a coleta e aproveitamento desse material, via reciclagem.
Porém, pouca gente sabe que é possível fazer
tecidos usando garrafas PET. Uma grande empresa têxtil com sede
em São Paulo tem uma linha voltada para roupas profissionais.
Nela, utiliza tecidos de composição mista, na qual inclui-se
a fibra reciclada, comprada já pronta.
Apesar de seu caráter surpreendente, a roupa em cujo tecido
há garrafas PET nada perde em termos de conforto, caimento,
beleza e durabilidade. E traz o bônus extra de ajudar na preservação
dos recursos naturais. “É o tecido ecologicamente correto”,
resume Cristiane Yajima, gerente de Produtos da Divisão Workwear
da empresa que compra a fibra reciclada para utilizá-la na
confecção de roupas profissionais. Segundo ela, é
gratificante, inclusive para os trabalhadores a vesti-las, a consciência
de que também estão, de alguma forma, contribuindo para
um meio ambiente menos degradado.
Já a empresa que vende a fibra registra, em sua propaganda,
o compromisso social estabelecido pela atividade que exerce, posto
que a captação de materiais recicláveis é
fonte de renda para cerca de 200 mil famílias em todo o Brasil.
A fábrica recicla 18 mil toneladas de garrafas PET por ano,
montante que é totalmente reaproveitado em forma de fibra.
O processo ocorre sem perdas porque o poliéster preserva integralmente
as propriedades dos flocos em que são transformadas as garrafas,
depois de separadas por cores, lavadas e moídas.
Esse
é um mercado que também tende a crescer. “Há
empresas que valorizam a questão ecológica”, diz
Cristiane Yajima, lembrando que o aspecto social, de estímulo
à atividade através da qual sobrevivem tantas famílias,
também conta pontos na hora de decidir pela fibra reciclada.
O
sistema que localiza vazamentos
Vazamentos
na indústria de petróleo e de outros produtos líquidos,
gasosos ou multifásicos têm se tornado responsáveis
por desastres ambientais com graves conseqüências para
plantas, animais e seres humanos. Somem-se os prejuízos econômicos
decorrentes das perdas de produção e das multas aplicadas
pelo Governo e se terá um quadro de prejuízo completo,
à natureza e à empresa que se sujeita a esse risco.
Atenta a esse nicho de mercado, uma empresa paulista investiu R$ 1,2
milhão, desde 2001, para nacionalizar uma tecnologia denominada
Sistema Acústico de Detecção e Localização
de Vazamentos para Dutos, disponibilizando toda uma linha de produtos
que visa evitar acidentes ambientais.
O sistema detecta e localiza vazamentos através da onda de
som originada do próprio vazamento. O som é captado
pelos sensores acústicos instalados ao longo do duto e essa
informação é passada a unidades remotas próximas
que, por sua vez, enviam esse sinal, por qualquer meio de comunicação
- rádio, satélite, fibra ótica ou ethernet -
ao PC do sistema em uma sala de controle. “A tecnologia é
aplicável, a princípio, a qualquer gás ou líquido”,
diz o gerente de Empreendimentos da empresa, Lucien Gormezano.
A localização do vazamento se dá pelo cálculo
do tempo de "viagem" da onda de som do ponto de ruptura
até os sensores acústicos adjacentes, comparado por
relógios de precisão de 500 nanosegundos, sincronizados
por GPS. O sistema de detecção continua monitorando
o vazamento, mesmo no caso de falha ou perda de comunicação.
E a tecnologia permite que ele feche, automaticamente, válvulas
de bloqueio.
Apesar
da clientela aparentemente estar mais ligada às empresas estatais,
o mercado já respondeu também na iniciativa privada.
Recentemente, a empresa instalou seu sistema em um duto de etileno
que vai do porto de Aratu à sede da indústria cliente,
no Pólo Petroquímico de Camaçari, ambos na Bahia.
A
nova tecnologia está apta a detectar a ocorrência e localizar
vazamentos em dutos aéreos, subterrâneos ou submarinos,
considerando-se que o som viaja em qualquer meio, exceto no vácuo.
E quanto ao custo? “Depende do tipo de produto, do comprimento
do duto e de quantos sensores serão colocados”, responde
Gormezano.
Fonte:
Portal Ambiente Brasil - 13/05/2005