Janeiro de 2004

Japoneses produzem
CDs a partir do milho

A fabricante de produtos eletroeletrônicos japonesa Sanyo lançou no mercado no mês passado um CD virgem produzido com material plástico proveniente do milho. Batizado com o nome comercial de MildDisk, o produto tem como matéria-prima o bioplástico ácido poliláctico (PLA), processado a partir da planta pela norte-americana Cargill Dow.
A Sanyo, responsável pela fabricação dos discos, não revela os detalhes do processo, afirmando apenas que eles são moldados por injeção, como os CDs comuns de policarbonato. O bioplástico é fornecido em pellets pela também japonesa Mitsui Chemicals, licenciada pela Cargill Dow para a comercialização do PLA no país oriental. Segundo a Sanyo, cerca de 85 grãos de milho são o suficiente para a fabricação de um disco, o que significa que uma espiga pode dar origem a dez CDs (a estimativa toma como base o peso de 0,5g para um grão seco).
Os discos possuem 1,2 mm de espessura, pesam 16,3g e, além do ácido poliláctico, contêm em sua estrutura uma camada de alumínio (material reflexivo) e outra de resina acrílica, que serve como proteção. Segundo Ryan Watson, do departamento de comunicação da empresa, “não há diferença entre os CDs de PLA e os policarbonato no que se refere à qualidade da gravação”. Watson revela, porém, que existem diferenças entre os dois materiais em termos de resistência à temperatura: “acreditamos que os MildDisks não sejam capazes de reproduzir sua gravação depois de serem submetidos a temperaturas maiores que 50ºC”, afirma o representante da Sanyo, explicando que, por isso, os CDs de ácido de poliláctico não são adequados no momento para música ou vídeo-games, “mas são uma boa opção para discos oferecidos como brindes em revistas ou softwares que precisam ser substituídos freqüentemente”. Watson afirma que a Sanyo está trabalhando para melhorar a resistência ao calor”dos MildDisks, pois pretende ampliar aos poucos a aplicabilidade do produto.

Polímero “ecológico”
Além de ser proveniente de um recurso natural renovável, a ácido poliláctico é também um polímero biodegradável. Para garantir um produto 100% “ecológico”, a Sanyo utiliza o material também na fabricação do estojo que acomoda o disco e no filme que embala ambos.
Segundo a Cargill Dow, a produção do PLA segue, basicamente, os seguintes passos: primeiramente, o amido é separado do milho por meio da moagem e processado para a obtenção de glicose não-refinada. Em um processo de fermentação semelhante ao usado na produção de bebidas como cerveja e vinho, a glicose é convertida em ácido láctico, que, por sua vez, passa por uma condensação “especial”e dá origem ao monômero do PLA. Este é então purificado por destilação a vácuo e submetido à polimerização em ciclo aberto por meio de um processo de fusão livre de solventes.
O milho não é o único vegetal que permite a obtenção do ácido poliláctico. No Brasil, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da Universidade de São Paulo (USP) estuda a produção do material a partir da cana-de-açúcar (veja matérias sobre o assunto nas edições de setembro de 1998, julho de 2000 e outubro de 2003 de Plástico Industrial ).

Biodegradabilidade para presente.
Outra aplicação dos polímeros biodegradáveis foi recentemente lançada comercialmente no Brasil pela perfumaria O Boticário. Trata-se de um saco plástico desenvolvido especialmente para servir como embalagem para presente dos produtos vendidos na época do Natal, fabricado pela empresa paulista Antilhas. Diferentemente do que ocorre com os CDs da Sanyo, porém, a embalagem dos perfumes não é fabricada com um bioplástico, e sim com um polímero comum (polietileno de baixa densidade, ou PEBD) que recebe um aditivo que acelera seu processo de degradação.
O aditivo é fornecido pela ResBrasil (Valinhos, SP), licenciada pela empresa inglesa Sympony, detentora da tecnologia para sua fabricação. Segundo Eduardo Van Roost, diretor superintendente da companhia paulista, a formulação é acrescentada ao PEBD na fase de pré-mistura (na entrada da extrusora), na proporção de 3%. Roost explica que o aditivo, que tem como base um polímero de acetato (maiores detalhes sobre sua composição não foram revelados), “fragiliza as cadeias do polímero, fazendo com que as ligações entre as moléculas de carbono e hidrogênio se rompam facilmente”. Com isso, ao ser descartado, o material se torna mais suscetível ao ataque dos microorganismos que se encarregam de sua degradação.
Roost afirma que, após o descarte, o filme de PEBD aditivado entra em processo de degradação em cerca de 18 meses. Esse prazo, segundo o diretor, é uma “média”, partindo do pressuposto de que o produto esteja exposto ao calor e à umidade.

Revista Plástico Industrial – Ano VI – nº 65
Coluna Notícias