Dita
a sabedoria popular que virtudes e defeitos caminham de mãos
dadas. Trazida à observação de embalagens, essa
idéia encontra providencial respaldo nos recipientes e envoltórios
plásticos. Afinal, a série de conveniências que
eles proporcionam, tanto para a indústria quanto para o consumidor,
nasce de aspectos que também lhes imputam o indesejável
fardo de vilões ambientais. Por serem majoritariamente baratos,
descartáveis, resistentes, leves e terem baixa densidade, eles
ocupam grande volume em aterros, flutuam em rios e oceanos e demoram
a degradar naturalmente. Naturalmente, essa visibilidade os torna réus
constantes do libelo ecológico.
Existem, porém, a perspectiva de que num futuro não muito
distante essa gangorra possa pender só para o lado benéfico.
Isso porque vêm se desenvolvendo, no mundo inteiro, formas de
atenuar bastante a agressão dos plásticos à natureza.
Notícias ainda melhores: algumas delas já marcam presença
no Brasil, e utilizações de vanguarda, na área
de embalagens, começam a pipocar no mercado. Trata-se de uma
movimentação bancada pela RES Brasil, empresa sediada
em Cajamar (SP) que importa e licencia o uso de tecnologias comprometidas
com a “causa verde”. Entre elas, uma em especial, a D2W,
vem sendo bem recebida pelo setor de conversão de embalagens
nacional.
Ligações enfraquecidas
Conforme explica Eduardo Van Roost, diretor superintendente da RES Brasil,
a tecnologia em questão, desenvolvida pela inglesa Symphony,
é a base para a obtenção de um aditivo que, acrescentado
aos processos convencionais de transformação de polietileno
ou de polipropileno, numa proporção de em média
3% da matéria-prima bruta, possibilita a produção
de peças plásticas com acelerado processo de degradação
e de biodegradação. “Enquanto um plástico
convencional pode levar até cem anos para se decompor na natureza,
o plástico com o aditivo pode se degradar em questão de
meses, numa velocidade que pode ser regulada de acordo com o produto”,
ilustra o empresário. O aditivo, de nome EMc, é fornecido
na forma de pellets, à guisa das resinas termoplásticas
comuns.
Sob o crivo científico, a ação do produto é
simples. Ele começa a trabalhar quando o plástico é
descartado, fragilizando, sob condições comuns do ambiente,
as ligações entre as moléculas de carbono e hidrogênio
que formam o material. Luz ultravioleta, calor, umidade e stress da
embalagem (manipulação excessiva e fricção)
estimulam o processo. “O plástico vai se decompondo em
fragmentos moleculares facilmente digeríveis por fungos e bactérias,
que quebram as cadeias de carbono e hidrogênio. Os átomos
livres, resultantes dessa quebra, se ligam ao oxigênio da atmosfera,
formando dióxido de carbono e água, ou seja, aquilo que
exalamos na respiração”, explica Van Roost. “Assim,
o material some sem deixar resíduos nocivos”.
Uma fabricante de embalagens que está apostando alto no impacto
positivo dos plásticos degradáveis é a Antilhas.
Os consumidores poderão travar contato com a novidade já
neste fim de ano, através das embalagens de presente que a empresa
desenvolveu para as ações de Natal da rede de cosméticos
e perfumaria O Boticário.
São sacos de polietileno laminado, fechados por uma tira plástica,
disponíveis em três tamanhos. De acordo com Maurício
Groke, diretor comercial da Antilhas, elas são as primeiras embalagens
degradáveis e biodegradáveis produzidas em grande escala
industrial, na casa dos milhões de unidades, no país.
“Pelo o que sabemos, é também a primeira vez no
mundo que uma rede de lojas de perfumaria e cosméticos utiliza
tal tecnologia em suas embalagens nessa proporção”,
ele adiciona.
Outra atuante de peso da área de embalagens flexíveis
com sinal verde para entregar produtos com a tecnologia D2W é
a Nobelplast, que se vale de uma marca, a Bioplast, para a sua linha
de sacolas degradáveis. Em relação a trabalhos
já consolidados com esse tipo de solução, Beni
Adler, diretor executivo da empresa, aponta para envelopes de segurança
recentemente fornecidos para o Instituto Ayrton Senna. “E um bom
volume de nossas sacolas degradáveis está na iminência
de entrar no mercado, pois recentemente fechamos um contrato com a Natura”,
antecipa o executivo.
Sem restrições de processo
Tanto a Antilhas quanto a Nobelplast ressaltam que a adição
do agente acelerador de degradação não altera as
propriedades como resistência dos materiais, e tampouco implica
em restrições quanto à decoração
da embalagem.
“São necessários apenas alguns cuidados na armazenagem
por longos períodos, evitando que haja exposição
excessiva das embalagens aos fatores estimulantes da degradação”,
diz Groke. Porém é preciso deixar claro que a sacola não
vai se esfacelar na mão do consumidor se ela tomar chuva ou ficar
no sol, pois a degradação ocorre a partir de uma exposição
contínua e prolongada a esses fatores”, ele esclarece.
Adler, por sua vez, lembra ainda que o aditivo em nada compromete a
reciclagem. “Tanto é que estamos prestes a lançar
uma linha de embalagens feita a partir da reciclagem do plástico
aditivado”, ele afirma.
Como o aditivo tecnicamente se comporta como uma resina comum, se quando
aos mais diversos tipos de processamento do plástico –
e não somente ao de extrusão, manancial das flexíveis
-, que seria de se esperar que fabricantes de embalagens rígidas
também se interessarem por ele.
Nesse campo, a catarinense AB Plast é pioneira no mercado nacional:
ela já detém o know-how para a fabricação
de peças sopradas, em polietileno, e injetadas, em polipropileno,
com as propriedades degradáveis da D2W. André Bornschein
Silva, diretor executivo da AB Plast, conta que seus frascos e tampas
aditivados despertaram forte interesse de uma grande indústria
nacional de cosméticos e perfumes. A consolidação
de um contrato de fornecimento aguarda apenas o retorno de laudos internacionais.
“Pelo fato de os frascos ficarem em contato permanente com aquilo
que acondicionam, necessitamos de total precisão quanto ao tempo
de degradação das embalagens, que, obviamente, deve ser
maior que a validade do produto”, detalha o diretor. “De
posse dos pareceres científicos, poderemos estudar como cliente
quais as linhas apropriadas a utilizarem essas embalagens.”
Vale o acréscimo?
Obviamente, ter esse atributo ecológico incorporado às
embalagens requer um desembolso maior do usuário. Para as flexíveis,
calcula-se um aumento de preços na casa dos 20% ou 30%, no caso
das embalagens degradáveis em 18 meses, como as que por ora são
produzidas. Na visão de Van Roost, esse adicional não
confirma a solução somente a utilizações
pontuais ou a produtos com algum valor agregado. “Até redes
de supermercados podem adotar sacolas plásticas degradáveis,
o que promete acontecer em breve por aqui”, ele adianta.
“Comparado ao que conhecíamos até então nessa
área, como os plásticos orgânicos, derivados de
amido, o custo dessa tecnologia é baixo, uma quebra de paradigma.
Porém, como no nosso mercado muitas vezes briga-se por centavos,
não será fácil conseguirmos total simpatia de imediato”,
diz Silva, da AB Plast. “No fundo, o empresariado precisa refletir
sobre a vantagem que é ter sua marca comprometida com a ecologia
e desligadas do problema do lixo”, sugere Groke, da Antilhas.
Revista
Embalagem Marca – dezembro de 2003 – Ano V – nº
52
Por Guilherme Kamio