Como os microplásticos podem afetar os seres humanos?

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Como já sabemos, microplásticos são gerados pela degradação ao longo do tempo dos produtos plásticos. É considerado microplástico todo plástico com tamanho igual ou menor a 5mm. Contribui para a geração de microplásticos na natureza, solo e águas o descarte indevido de todo e qualquer material plástico. Logo, é possível perceber que o problema é a forma que descartamos incorretamente na natureza, e não seu uso em si. Hoje é dia de falar dos efeitos nocivos dos microplásticos e tentar conscientizar cada vez mais pessoas sobre a importância da reciclagem e do descarte correto.

Os seres humanos já geraram 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico desde 1950. Apenas 9% dos resíduos plásticos foram reciclados e a grande maioria acaba em aterros e no meio ambiente, onde se desfaz em micropartículas que poluem as águas e o ar, prejudicam a fauna marinha e, infelizmente, são ingeridas pelos seres humanos.

Os microplásticos são divididos em duas classificações:

Primárias – Quando são liberados no ambiente como pequenas partículas, como pellets (esferas usadas como matéria-prima para produção de plásticos maiores) e microesferas adicionadas em cosméticos, pastas dentais e esfoliantes, além de outros produtos de higiene;

Secundárias – Quando resultam da degradação de objetos maiores. Como por exemplo fibras de roupas sintéticas, pneus, embalagens, sacolas, garrafas pet, redes de pesca, restos de materiais empregados na agricultura (como estufas, telas) etc.

Um estudo foi apresentado em um congresso de gastroenterologia realizado em Viena (Áustria), e contou com a participação de oito voluntários do mesmo número de países, entre os quais estão Reino Unido, Itália, Rússia, Japão, Finlândia, Polônia, Holanda e a própria Áustria. Durante uma semana eles tiveram que comer e beber como de costume, anotando tudo o que ingeriam, se era fresco ou não e o tipo de embalagem da comida. Depois disso, pesquisadores da Universidade Médica de Viena e da agência estadual do meio ambiente do país coletaram amostras de suas fezes.

Os resultados mostraram que, dos 10 tipos de plásticos comuns, nove foram encontrados nas fezes humanas. Os mais comuns eram o propileno, básico em embalagens de leite, sacos, sacolas, de alimentos, de sucos, e o PET, com o qual é feito a maioria das garrafas plásticas. O comprimento das partículas variou entre 50 e 500 micras. E, em média, os pesquisadores encontraram 20 microplásticos para cada 10 gramas de matéria fecal. De acordo com o diário dos participantes, sabe-se que todos consumiram algum alimento embalado e pelo menos seis comeram peixe. A pesquisa não conseguiu determinar a origem das partículas encontradas nas amostras.

“É o primeiro estudo deste tipo e confirma o que suspeitamos há algum tempo, que os microplásticos chegam ao intestino”, disse o gastroenterologista e hepatologista Philipp Schwabl, da Universidade Médica de Viena, principal autor do estudo. “Embora em estudos com animais a maior concentração de plásticos tenha sido localizada no intestino, as menores partículas de microplásticos podem entrar na corrente sanguínea, no sistema linfático e até alcançar o fígado”, acrescenta.

Em 2016, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação emitiu um relatório onde coletou dados sobre a presença de microplásticos na vida marinha: até 800 espécies de moluscos, crustáceos e peixes já sabem o que é comer plástico, infelizmente. Mesmo que a grande maioria das partículas permaneçam no sistema digestivo (órgão do peixe não ingerido pelo ser humano), ainda existe o risco de ingestão nos casos em que o peixe ou fruto do mar é comido por inteiro, como mariscos, ostras, mariscos ou peixes menores. Além disso, um estudo publicado pelo Greenpeace também mostrou que, particularmente na Ásia, a grande maioria do sal marinho para uso doméstico contém microplásticos.

Além da possível contaminação em água para beber e alguns alimentos, a presença de microplásticos no ar também é motivo de preocupação. A professora Thaís Mauad e o pesquisador Luís Fernando Amato Lourenço, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, planejam avaliar a quantidade de fragmentos encontrados no ar de São Paulo e analisar suas características e efeitos para a saúde humana, já que em um estudo-piloto eles detectaram microfibras de plástico em suspensão na avenida Dr. Arnaldo, importante via da capital paulista.

Mas a questão final que deve ser esclarecida pela ciência é qual a quantidade de microplástico ingerido que pode se tornar um problema para a saúde humana, levando em conta dois riscos: a presença dessas partículas em si e a toxicidade dos componentes químicos. Enquanto isso não é esclarecido, todo cuidado é pouco para que os microplásticos não façam parte da nossa alimentação.

Fontes: Jornal El País
FAPESP – Revista Pesquisa
ecycle.com.br
USP