A
proteção ao meio ambiente está abrindo novas oportunidades
de investimentos e alguns empresários descobrem que trabalhar
a favor do ecologicamente correto pode ser um grande negócio.
Carlos Roberto Bernardino, por exemplo, criou uma empresa especialmente
dedicada a comercialização de produtos biodegradáveis,
compostáveis e hidrossolúveis.
Ele também opera na busca de soluções inovadoras
e ideais para problemas de geração e destinação
final de resíduos. José Antônio Puoli Filho é
outro que entrou para o ramo investindo numa fábrica de equipamentos
para medição de volume de tanques subterrâneos,
instrumento indispensável para monitorar vazamentos em postos
de gasolinas e depósitos químicos.
Enquanto Bernardino fundava em Campinas a “rEs Brasil”,
com logomarca de minúsculas e maiúsculas, Puoli Filho
lançava no mercado a Telemed ambiental, com sede em São
Paulo. Ambos consideram seus empreendimentos uma prova cabal de que
a luta pela preservação ambiental abre oportunidades para
investir em atividades rentáveis e compensadoras não apenas
do ponto de vista financeiro. O reconhecimento de que construindo para
melhorar a qualidade de vida das pessoas também rende em satisfação
pessoal e orgulho.
Maria Sulema Pioli, bióloga e especialista em Direito Ambiental
da Secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil,
relaciona as várias oportunidades de negócios abertas
numa sociedade que começa a adquirir consciência da necessidade
de preservar a Natureza. “Investimentos podem ser feitos em laboratórios
de análise de água e solo, em equipamentos de tratamento
de resíduos sólidos, em empresas de consultoria e engenharia
ambiental ou de desenvolvimento de softwares para tabulação
e controle de dejetos, por exemplo”.
Falando no seminário “Meio Ambiente e Negócios”,
promovido no último dia 24 pelo Instituto ADVB de Responsabilidade
Social, no salão nobre a Fiesp/Ciesp, o autor o livro Os Bilhões
Perdidos no Lixo, Sabetai Calderoni, doutor em Ciências pela Universidade
de São Paulo, lembrou que anualmente morrem no mundo 5,2milhões
de pessoas vitimadas por doenças resultantes do lixo. Com o anúncio
de que um dos dois lixões da cidade de São Paulo estará
com sua capacidade esgotada em 36 meses, os problemas decorrentes da
destinação dos resíduos gerados por uma grande
metrópole foram classificados como uma tragédia em ebulição.
“A reciclagem, criando empregos e possibilitando o reaproveitamento
de matérias-primas escassas, é a única solução
viável”, disse o professor.
No caso de Bernardino, esse problema foi encarado através de
parceria internacional com a rEs Brasil S.A., empresa européia
com sede em Luxemburgo, pela rEs Brasil. Sua empresa começou
a buscar permanentemente variados produtos que visam diminuir ou até
mesmo anular os danos causados ao meio ambiente pelos resíduos.
Utilizando uma resina plástica a base de amido de milho, produto
biodegradável que se transforma em adubo orgânico em seis
meses, enquanto a de origem petrolífera leva 200 anos para se
decompor a rEs Brasil começou a fabricar coberturas para fraldas,
lenços higiênicos, hastes flexíveis com algodão,
saboneteiras, recipientes para cosméticos. Alguns destes produtos
também são hidrossolúveis. Sua linha de produção
logo exibia descartáveis como pratos, talheres, copos de variados
tamanhos, canudos, tampas para copos e bandejas para embalagens alimentícias.
Todos os produtos fabricados com Mater-bi, como foi registrado esse
novo plástico ecológico, são também recicláveis
e podem ser processados com as mesmas tecnologias aplicadas ao plástico
convencional, tais como injeção em molde, moldagem por
sopro, laminação, formação de espuma, termoconformação
e extrusão, informa Bernardino. “Nossos produtos, com características
físicas e mecânicas similares ao plástico comum,
são totalmente biodegradáveis e compostáveis e,
em alguns casos, também são hidrossolúveis.”
Já a Telemed Ambiental, segundo Puoli Filho, abriu um mercado
que não existia antes da sociedade começar a valorizar
os cuidados com a preservação da Natureza.”Nosso
maior concorrente eram as réguas com que os donos dos postos
de gasolina avaliavam o volume armazenado em seus tanques.”
Na onda dessa mudança de cultura, ele instalou mais de 11 mil
equipamentos eletrônicos de medição em todo o território
nacional e promoveu a calibragem de mais de 60 mil tanques. “Depois
de quatro anos de fundação, a Telemed passou a atender
o segmento industrial, passando a oferecer produtos de medição
para os mais variados tipos, desde água até ácidos
e solventes”, disse Puoli Filho.
Há cerca de seis anos, quando a legislação ambiental
brasileira começou a ganhar forma, Puoli Filho descobriu que
um novo mercado estava ganhando forma com a consolidação
da consciência ecológica entre a sociedade. “Passamos
a centrar nosso foco nesse nicho embrionário e fomos formatando
novos segmentos de clientes potenciais, num reposicionamento mercadológico
importante para nossa empresa”.
Com um investimento em desenvolvimento tecnológico da ordem de
R$ 500 mil, a Telemed criou o MV1, outro equipamento para monitoramento
e detecção de vazamento para tanques, porta de entrada
para mercado externo. “Começamos a prospectar oportunidades
de exportação para a China, Índia, Rússia,
África do Sul e outros países da América Latina”,
ressaltou o empresário.
“O meio ambiente está saindo do limbo. Começamos
a vislumbrar um novo momento”, afirma Romildo Campelo, diretor
titular adjunto do Departamento de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
(DMA), da Fiesp/Ciesp. Ele ressalta a necessidade da legislação
de proteção à Natureza ser revista para adequar
aos novos tempos, possibilitando uma maior integração
da iniciativa privada, da sociedade e das autoridades governamentais
em projetos que promovam efetiva melhoria da qualidade de vida.
Revista
Notícias FIESP/CIESP – ano 4 º 94
Por Delmar Marques