07 de outubro de 2002

Ecologia gera oportunidades
Evitar a poluição beneficia
empresas e empregos

A proteção ao meio ambiente está abrindo novas oportunidades de investimentos e alguns empresários descobrem que trabalhar a favor do ecologicamente correto pode ser um grande negócio. Carlos Roberto Bernardino, por exemplo, criou uma empresa especialmente dedicada a comercialização de produtos biodegradáveis, compostáveis e hidrossolúveis.
Ele também opera na busca de soluções inovadoras e ideais para problemas de geração e destinação final de resíduos. José Antônio Puoli Filho é outro que entrou para o ramo investindo numa fábrica de equipamentos para medição de volume de tanques subterrâneos, instrumento indispensável para monitorar vazamentos em postos de gasolinas e depósitos químicos.
Enquanto Bernardino fundava em Campinas a “rEs Brasil”, com logomarca de minúsculas e maiúsculas, Puoli Filho lançava no mercado a Telemed ambiental, com sede em São Paulo. Ambos consideram seus empreendimentos uma prova cabal de que a luta pela preservação ambiental abre oportunidades para investir em atividades rentáveis e compensadoras não apenas do ponto de vista financeiro. O reconhecimento de que construindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas também rende em satisfação pessoal e orgulho.
Maria Sulema Pioli, bióloga e especialista em Direito Ambiental da Secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil, relaciona as várias oportunidades de negócios abertas numa sociedade que começa a adquirir consciência da necessidade de preservar a Natureza. “Investimentos podem ser feitos em laboratórios de análise de água e solo, em equipamentos de tratamento de resíduos sólidos, em empresas de consultoria e engenharia ambiental ou de desenvolvimento de softwares para tabulação e controle de dejetos, por exemplo”.
Falando no seminário “Meio Ambiente e Negócios”, promovido no último dia 24 pelo Instituto ADVB de Responsabilidade Social, no salão nobre a Fiesp/Ciesp, o autor o livro Os Bilhões Perdidos no Lixo, Sabetai Calderoni, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, lembrou que anualmente morrem no mundo 5,2milhões de pessoas vitimadas por doenças resultantes do lixo. Com o anúncio de que um dos dois lixões da cidade de São Paulo estará com sua capacidade esgotada em 36 meses, os problemas decorrentes da destinação dos resíduos gerados por uma grande metrópole foram classificados como uma tragédia em ebulição. “A reciclagem, criando empregos e possibilitando o reaproveitamento de matérias-primas escassas, é a única solução viável”, disse o professor.
No caso de Bernardino, esse problema foi encarado através de parceria internacional com a rEs Brasil S.A., empresa européia com sede em Luxemburgo, pela rEs Brasil. Sua empresa começou a buscar permanentemente variados produtos que visam diminuir ou até mesmo anular os danos causados ao meio ambiente pelos resíduos. Utilizando uma resina plástica a base de amido de milho, produto biodegradável que se transforma em adubo orgânico em seis meses, enquanto a de origem petrolífera leva 200 anos para se decompor a rEs Brasil começou a fabricar coberturas para fraldas, lenços higiênicos, hastes flexíveis com algodão, saboneteiras, recipientes para cosméticos. Alguns destes produtos também são hidrossolúveis. Sua linha de produção logo exibia descartáveis como pratos, talheres, copos de variados tamanhos, canudos, tampas para copos e bandejas para embalagens alimentícias.
Todos os produtos fabricados com Mater-bi, como foi registrado esse novo plástico ecológico, são também recicláveis e podem ser processados com as mesmas tecnologias aplicadas ao plástico convencional, tais como injeção em molde, moldagem por sopro, laminação, formação de espuma, termoconformação e extrusão, informa Bernardino. “Nossos produtos, com características físicas e mecânicas similares ao plástico comum, são totalmente biodegradáveis e compostáveis e, em alguns casos, também são hidrossolúveis.”
Já a Telemed Ambiental, segundo Puoli Filho, abriu um mercado que não existia antes da sociedade começar a valorizar os cuidados com a preservação da Natureza.”Nosso maior concorrente eram as réguas com que os donos dos postos de gasolina avaliavam o volume armazenado em seus tanques.”
Na onda dessa mudança de cultura, ele instalou mais de 11 mil equipamentos eletrônicos de medição em todo o território nacional e promoveu a calibragem de mais de 60 mil tanques. “Depois de quatro anos de fundação, a Telemed passou a atender o segmento industrial, passando a oferecer produtos de medição para os mais variados tipos, desde água até ácidos e solventes”, disse Puoli Filho.
Há cerca de seis anos, quando a legislação ambiental brasileira começou a ganhar forma, Puoli Filho descobriu que um novo mercado estava ganhando forma com a consolidação da consciência ecológica entre a sociedade. “Passamos a centrar nosso foco nesse nicho embrionário e fomos formatando novos segmentos de clientes potenciais, num reposicionamento mercadológico importante para nossa empresa”.
Com um investimento em desenvolvimento tecnológico da ordem de R$ 500 mil, a Telemed criou o MV1, outro equipamento para monitoramento e detecção de vazamento para tanques, porta de entrada para mercado externo. “Começamos a prospectar oportunidades de exportação para a China, Índia, Rússia, África do Sul e outros países da América Latina”, ressaltou o empresário.
“O meio ambiente está saindo do limbo. Começamos a vislumbrar um novo momento”, afirma Romildo Campelo, diretor titular adjunto do Departamento de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (DMA), da Fiesp/Ciesp. Ele ressalta a necessidade da legislação de proteção à Natureza ser revista para adequar aos novos tempos, possibilitando uma maior integração da iniciativa privada, da sociedade e das autoridades governamentais em projetos que promovam efetiva melhoria da qualidade de vida.

Revista Notícias FIESP/CIESP – ano 4 º 94
Por Delmar Marques