05 de abril de 2003

Plástico “ecológico” é novo trunfo na indústria
Resina de amido serve de matéria prima para a fabricação de diversos produtos; empresa de Valinhos detém licença de tecnologia

Já é possível aliar consciência ecológica à praticidade e jogar, no lixo comum, sacolas de supermercados, embalagens e utensílios descartáveis sem sentir culpa pelo cem anos que eles vão demorar para se decompor no meio ambiente. Isso se os produtos forem de plástico biodegradáveis ou solúveis em água, que, ao contrário dos derivados do petróleo, são rapidamente absorvidos na natureza e podem até servir de adubo, eliminando o descarte em aterros sanitários e deixando de poluir rios e oceanos. Comum nos Estados Unidos e Europa, a tecnologia de produção desse material está sendo importada por um empresário de Valinhos e seu sócio de São Paulo, que começa a se difundir no Brasil, especialmente em pólos industriais paulistas.
A responsável pela novidade é a ResBrasil, empresa de representação comercial que importa com exclusividade da Itália, França, Inglaterra e Alemanha, as resinas de amido que são a matéria-prima do plástico “verde”. “Trazemos o know-how e licenciamos fabricantes do filme usado nos produtos finais”, explica Eduardo Van Rosst. Segundo ele, a ResBrasil já tem contratos com seis empresas, entre elas três líderes no mercado nacional de embalagens, que por sua vez, estão na fase de desenvolvimento de produtos ou de comercialização de envases com esse material para finalidade específicas, como a indústria de cosméticos.
O empresário informa que as resinas são feitas principalmente de mandioca, milho ou batata (não transgênicas), razão pela qual o filme plástico resultante se deteriora pela ação de microorganismos em contato com o solo, em um período de 40 a 120 dias se transformando em um composto orgânico que pode ser usado como húmus na adubação.
Tanto a resina quanto o plástico hidrossolúvel, à base de álcool polivinilico atóxico que se desmancha sem deixar resíduos, são inofensivos à saúde e certificados pela FOODS entre DRUGS ADMINISTRATION (FDA), órgão de controle de alimentos e medicamentos norte-americano e pela Comunidade Européia, segundo Van Roost.
“Cerca de 60% do volume dos aterros sanitários é de objetos de plástico, que levam até cem anos para se decompor. Só as redes de supermercados consomem no Brasil, entre 600 e 700 milhões de sacolas por mês, que acabam usadas para acondicionar lixo e indo parar nos aterros”, afirma. “O plástico hidrossolúvel não é despejado no esgoto, não interfere na composição do produto que embala e não vai parar nos oceanos, ao contrário dos plásticos comuns que matam milhares de tartarugas marinhas que as comem pensando ser algas vivas ou caravelas”, destaca.
Outra vantagem do plástico biodegradável, segundo o importador, é que, por suas características ele pode ser um futuro substituto da celulose extraída do eucalipto que, no Brasil, leva de 7 a 8 anos para atingir ponto de corte. No exterior onde cada árvore da espécie leva ate 21 anos para crescer, de acordo com Van Roost, isso já é comum. “A mandioca, que é uma das bases da resina, e é abundante em nosso país, cresce em um ano”, compara.
Custo – Um dos empecilhos para a popularização do plástico biodegradável ou hidrossolúvel na indústria nacional, é o preço. De acordo com Van Roost dependendo do processo de transformação necessário, o uso dessa matéria-prima pode tornar de 50% a duas vezes mais caro o produto final, o que acaba inviabilizando a utilização em larga escala. “O plástico comum é muito mais barato porque, além de ser apenas um dos subprodutos do petróleo é derivado de extrativismo. Já as resinas de amido são provenientes de materia-prima renovável, que ainda têm um custo maior porque envolve produção”, avalia.
Mas, apesar do alto investimento, o retorno é certo, na opinião de Van Roost, pelo menos em inícios específicos de consumo, pela onda do “politicamente correto” e da preocupação crescente com a preservação ambiental. “Uma rede de supermercado inglês aumentou em 25% as vendas depois de apostar nas embalagens biodegradáveis para hortifrutis e outros alimentos”, conta.

Correio Popular - Caderno Cidades - Por Sammya Araújo