25 de Março de 2001

Cidade perde R$ 1,9 bi por não reciclar lixo
Estimativa leva em conta desde a eletricidade até
gasto com aterros sanitários

São Paulo perde R$ 1,9 bilhão por ano por não reciclar seu lixo. O número é do pesquisador Sabetai Calderoni, do Núcleo de Políticas e Estratégias da USP. Para calculá-lo, ele computou a energia elétrica gasta para produzir a partir de matéria-prima virgem, o custo da água – que é menor quando se produz a partir de sucata, o preço das matérias-primas e dos equipamentos de controle ambiental e os gastos com aterros sanitários. Também inclui o que se deixa de ganhar por não aproveitar o lixo orgânico, que responde por 60% da quantidade de resíduos produzida.
“Da parte inorgânica do lixo – plásticos, metais, vidros, papel e papelão, de um potencial de R$ 1,18 bilhão, a cidade só consegue R$ 326 milhões com a reciclagem”, explica. “Da inorgânica – restos de comida, podas, varrição, que poderia gerar energia e adubo de boa qualidade, a perda é de R$ 1 bilhão.”
A cada dia, cerca de 16 mil toneladas de lixo são produzidas na capital. A maior parte do que é coletado acaba indo para os aterros sanitários, usinas de compostagem ou para um incinerador que funciona há mais de três décadas. Uma grande quantidade de resíduos ainda vai para terrenos baldios, córregos, represas ou nos Rios Pinheiros e Tietê.
“Por seu porte, São Paulo é uma das cidades que mais desperdiçam nas Américas”, acredita a diretora do Instituto Pólis e coordenadora do Fórum Lixo e Cidadania da Cidade de São Paulo, Elisabeth Grimberg.
Segundo ela, em tese por-se-ia aproveitar 80% do lixo produzido na capital, mas apenas 3% acabam reutilizados. Do total desviado dos aterros, 30% é por obra dos catadores, 1% das usinas de compostagem da Vila Leopoldina e São Mateus, 0,06% dos postos de entrega voluntária e o resto pela ação de sucateiros.
Para brigar pela produção e reaproveitamento dos resíduos sólidos urbanos, em junho de 2000, 60 entidades criaram o Fórum Lixo e Cidadania da Cidade de São Paulo. Pregando a gestão compartilhada do lixo por órgãos públicos e instituições da sociedade, o fórum também apresenta como propostas a participação de catadores na coleta, triagem e comercialização dos resíduos sólidos urbanos, a segregação de materiais perigosos nas fontes geradoras e a erradicação do trabalho infantil nos lixões.
Em agosto de 2000, a então candidata Marta Suplicy (PT) se comprometeu a pôr em prática a Plataforma Lixo e Cidadania elaborada pelo fórum. As entidades estão na expectativa.
Para Vladimir Kudrjawzew, diretor da Repet, empresa de reciclagem de pets (garrafas plásticas de refrigerante), quem paga a conta da não reutilização do lixo é o cidadão paulistano. Fundada em 1996, a cada mês, a companhia transforma até 26 milhões de garrafas em poliéster. “Em São Paulo, porém, nem 10% dos pets são reciclados”, lamenta. (L.G.)

O Estado de São Paulo – Por Itamar Miranda/AE