2 de Junho de 2002

Residências Produzem 73% do lixo em SP
Técnicos alertam para problemas que resíduos trazem à cidade: são 15 mil toneladas por dia

Qualquer dona de casa sabe: basta um almoço ou jantar mais caprichado para encher o balde de lixo de embalagens, garrafas de refrigerante, latas de cerveja, restos de alimento. A esses resíduos de cozinha se juntam os de higiene e limpeza, dezenas de sacolinhas plásticas de supermercado, jornais empilhados, caixas.
Numa cidade do tamanho de São Paulo, a produção doméstica de cada casa tem de ser diariamente multiplicada por milhões. O resultado são montanhas de resíduos que, sem reciclagem suficiente, são despejados nos aterros de São João, em Sopapemba, na zona leste, ou Bandeirante, em Peruz, zona oeste.
Segundo a prefeitura, cerca de 15 mil toneladas de lixo são produzidas todos os dias na cidade, das quais 11 mil, ou 73% vêm das casas. Cada pessoa produz, em média, de 800 gramas a 1,3 quilo, dependendo da classe social. Na mais alta, chega a 2 quilos. Do total, metade costuma ser lixo orgânico.
Para ver mais de perto o que existe no lixo doméstico, três famílias paulistanas separam, a pedido do Estado, o que acumulam em cinco dias. Todos os resíduos secos foram levados ao Instituto Pólis, pesados e analisados. Os resultados serviram como ponto de partida para a discussão sobre a produção de resíduos na cidade.
Para especialistas e técnicos do Pólis está na hora de prestar mais atenção ao problema do lixo. Além de os locais de despejo estarem praticamente saturados, a disposição inadequada dos resíduos contamina o ambiente e desperdiça recursos que poderiam ir por exemplo, para programas sociais. Estima-se 20 mil pessoas no Estado – boa parte delas crianças – retiram diariamente do lixo sua sobrevivência.

A solução, de acordo com os especialistas, reside sobre 4Rs: reduzir, reutilizar, reciclar e recusar embalagens poluidoras (que não podem ser recicladas). “Em nome de modernidade e praticidade, tem se gerado uma quantidade de resíduos que o planeta não tem capacidade de absorver”, explica a coordenadora da Área de Meio Ambiente do Instituto Pólis e do Fórum Lixo e Cidadania da Cidade de São Paulo, Elisabeth Grimberg. “Isso pode comprometer a vida das gerações futuras, com problemas como a falta de lugares para depositar lixo, de recursos naturais, a escassez de água”.
Na opinião de Elisabeth, mais do que reciclar, a solução é reduzir, o consumo, porque a reciclagem exige tecnologia e consome energia. “A solução é não produzir e ter critérios para consumo. Isso inclui pensar em produtos permanentes e, na hora da compra, analisar se aquilo é realmente necessário para, por exemplo, estar bem alimentado. Porque não comprar manga em vez de néctar de manga?”
Um dos problemas levantados por Elisabeth é o fato de, para deixar um produto atraente e individualizado, a indústria normalmente apelar para o excesso de embalagens. Assim, um simples pacote de bolinhos, por exemplo, costuma ter a embalagem plástica externa, um suporte plástico interno e invólucros individuais para cada um dos bolinhos.
Outra questão é que, dependendo do material, muitas vezes não há tecnologia para sua reciclagem ou, quando há, ela não é viável comercialmente. Sacos feitos de plástico e de alumínio usados para embalar salgadinhos, por exemplo, não são reciclados porque ainda não há tecnologia disponível no Brasil. O mesmo ocorre com as embalagens de sabonete que misturam papel e plástico com isopor. Outras, como as que têm cinco camadas de plástico e alumínio, são tão difíceis de separar que não dá para reciclar. Para as embalagens cartonadas, feitas de alumínio, papelão e plástico e usadas nas embalagens de leite longa vida, há tecnologia, mas ela é tão complicada que seu uso é inviável.
“Hoje em dia, antes se cria a embalagem para depois pensar em criar a tecnologia. Quando há necessidade de embalagem, ela deve ser produzida já pensando em reciclagem, não o contrário”, diz o pesquisador Sérgio Henrique Forini, integrante do projeto Pares, da Universidade de São Paulo (USP), que cuida de resíduos sólidos e materiais recicláveis.
Desafio – Para a coordenadora do Programa de Coleta Seletiva e Solidária da Cidade de São Paulo, Maria Inês Bertão, mudar o modo de produção é um desafio. “Nossa sociedade estimula o descartável. Consumimos muito e desperdiçamos muito, mas o consumidor tem um poder grande de recusar embalagem”, afirma. “A reciclagem é uma das formas, mas não é milagrosa e não vai dar conta de tudo: o grande desafio do mundo hoje, é o volume do lixo. É preciso ter uma política de minimização, reduzindo, reutilizando, reciclando e recusando embalagens poluidoras.”
O técnico do Instituto Pólis Cláudio Lorenzetti chama a atenção para o que considera essencial nessa questão. “As embalagens estão se tornando mais importantes do que o conteúdo. Elas têm de estar a serviço do produto e o produto a serviço da humanidade.”

O Estado de São Paulo – Caderno Cidades
Por Luciana Garbin