Qualquer
dona de casa sabe: basta um almoço ou jantar mais caprichado
para encher o balde de lixo de embalagens, garrafas de refrigerante,
latas de cerveja, restos de alimento. A esses resíduos de cozinha
se juntam os de higiene e limpeza, dezenas de sacolinhas plásticas
de supermercado, jornais empilhados, caixas.
Numa cidade do tamanho de São Paulo, a produção
doméstica de cada casa tem de ser diariamente multiplicada por
milhões. O resultado são montanhas de resíduos
que, sem reciclagem suficiente, são despejados nos aterros de
São João, em Sopapemba, na zona leste, ou Bandeirante,
em Peruz, zona oeste.
Segundo a prefeitura, cerca de 15 mil toneladas de lixo são produzidas
todos os dias na cidade, das quais 11 mil, ou 73% vêm das casas.
Cada pessoa produz, em média, de 800 gramas a 1,3 quilo, dependendo
da classe social. Na mais alta, chega a 2 quilos. Do total, metade costuma
ser lixo orgânico.
Para ver mais de perto o que existe no lixo doméstico, três
famílias paulistanas separam, a pedido do Estado, o que acumulam
em cinco dias. Todos os resíduos secos foram levados ao Instituto
Pólis, pesados e analisados. Os resultados serviram como ponto
de partida para a discussão sobre a produção de
resíduos na cidade.
Para especialistas e técnicos do Pólis está na
hora de prestar mais atenção ao problema do lixo. Além
de os locais de despejo estarem praticamente saturados, a disposição
inadequada dos resíduos contamina o ambiente e desperdiça
recursos que poderiam ir por exemplo, para programas sociais. Estima-se
20 mil pessoas no Estado – boa parte delas crianças –
retiram diariamente do lixo sua sobrevivência.
A
solução, de acordo com os especialistas, reside sobre
4Rs: reduzir, reutilizar, reciclar e recusar embalagens poluidoras (que
não podem ser recicladas). “Em nome de modernidade e praticidade,
tem se gerado uma quantidade de resíduos que o planeta não
tem capacidade de absorver”, explica a coordenadora da Área
de Meio Ambiente do Instituto Pólis e do Fórum Lixo e
Cidadania da Cidade de São Paulo, Elisabeth Grimberg. “Isso
pode comprometer a vida das gerações futuras, com problemas
como a falta de lugares para depositar lixo, de recursos naturais, a
escassez de água”.
Na opinião de Elisabeth, mais do que reciclar, a solução
é reduzir, o consumo, porque a reciclagem exige tecnologia e
consome energia. “A solução é não
produzir e ter critérios para consumo. Isso inclui pensar em
produtos permanentes e, na hora da compra, analisar se aquilo é
realmente necessário para, por exemplo, estar bem alimentado.
Porque não comprar manga em vez de néctar de manga?”
Um dos problemas levantados por Elisabeth é o fato de, para deixar
um produto atraente e individualizado, a indústria normalmente
apelar para o excesso de embalagens. Assim, um simples pacote de bolinhos,
por exemplo, costuma ter a embalagem plástica externa, um suporte
plástico interno e invólucros individuais para cada um
dos bolinhos.
Outra questão é que, dependendo do material, muitas vezes
não há tecnologia para sua reciclagem ou, quando há,
ela não é viável comercialmente. Sacos feitos de
plástico e de alumínio usados para embalar salgadinhos,
por exemplo, não são reciclados porque ainda não
há tecnologia disponível no Brasil. O mesmo ocorre com
as embalagens de sabonete que misturam papel e plástico com isopor.
Outras, como as que têm cinco camadas de plástico e alumínio,
são tão difíceis de separar que não dá
para reciclar. Para as embalagens cartonadas, feitas de alumínio,
papelão e plástico e usadas nas embalagens de leite longa
vida, há tecnologia, mas ela é tão complicada que
seu uso é inviável.
“Hoje em dia, antes se cria a embalagem para depois pensar em
criar a tecnologia. Quando há necessidade de embalagem, ela deve
ser produzida já pensando em reciclagem, não o contrário”,
diz o pesquisador Sérgio Henrique Forini, integrante do projeto
Pares, da Universidade de São Paulo (USP), que cuida de resíduos
sólidos e materiais recicláveis.
Desafio – Para a coordenadora do Programa de Coleta Seletiva e
Solidária da Cidade de São Paulo, Maria Inês Bertão,
mudar o modo de produção é um desafio. “Nossa
sociedade estimula o descartável. Consumimos muito e desperdiçamos
muito, mas o consumidor tem um poder grande de recusar embalagem”,
afirma. “A reciclagem é uma das formas, mas não
é milagrosa e não vai dar conta de tudo: o grande desafio
do mundo hoje, é o volume do lixo. É preciso ter uma política
de minimização, reduzindo, reutilizando, reciclando e
recusando embalagens poluidoras.”
O técnico do Instituto Pólis Cláudio Lorenzetti
chama a atenção para o que considera essencial nessa questão.
“As embalagens estão se tornando mais importantes do que
o conteúdo. Elas têm de estar a serviço do produto
e o produto a serviço da humanidade.”